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Juventude, Território e Direito è Cidade: Escuta Participativa como Base para Políticas Públicas Urbanas
Tipo: Artigo
Revista: 326
Autor(a): Herculis Pereira Tolêdo
Minicurrículo: Doutor em Serviço Social (PUC-Rio). Pesquisador e consultor em políticas públicas, com atuação nas áreas de território, juventude, participação social e direito à cidade. Colaborador do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), com experiência em assessorias técnicas, diagnósticos participativos e apoio à gestão pública municipal.
Resumo:

O artigo analisa a experiência Juventude & Cidade, desenvolvida na parceria entre o IBAM e o CAMP Mangueira em 2025, com foco na escuta qualificada de adolescentes e jovens como subsídio ao planejamento de políticas públicas urbanas e sociais. A partir de oficinas presenciais e consulta online, constrói-se um diagnóstico participativo ancorado nas experiências juvenis do território. Os resultados evidenciam leituras críticas da cidade, que articulam mobilidade, violência, desigualdades, cultura e bem-estar como dimensões do direito à cidade, reafirmando o papel das metodologias participativas territorializadas na gestão democrática. 

Publicação:

Introdução

As juventudes urbanas ocupam posição central nos debates contemporâneos sobre desigualdade, território e políticas públicas. Longe de constituírem um grupo homogêneo, os(as) jovens vivenciam a cidade a partir de trajetórias marcadas por profundas assimetrias de acesso a direitos, oportunidades e serviços públicos. Mobilidade urbana precária, violência cotidiana, desigualdades territoriais, dificuldades de inserção no mundo do trabalho e acesso restrito a bens culturais e de lazer compõem um cenário que atravessa de forma estruturante as experiências juvenis nas grandes cidades brasileiras.

No contexto urbano do Rio de Janeiro, essas desigualdades assumem contornos ainda mais agudos. A cidade é percebida simultaneamente como espaço de pertencimento, sociabilidade e identidade, mas também como território de medo, exclusão e barreiras concretas à circulação e ao exercício pleno da cidadania. Para grande parte da juventude moradora de territórios populares, falar da cidade implica falar de trajetos longos, transporte caro, violência, estigmatização dos bairros de moradia e dificuldades de acesso a oportunidades educacionais, culturais e profissionais.

Apesar desse cenário, as políticas públicas voltadas às juventudes ainda enfrentam desafios significativos no que diz respeito à incorporação sistemática da escuta juvenil nos processos de diagnóstico, planejamento e avaliação. Estudos recentes têm apontado que a ausência de mecanismos estruturados de participação e escuta tende a fragilizar a aderência territorial das políticas urbanas e sociais, limitando sua capacidade de enfrentar desigualdades socioespaciais persistentes (TOLÊDO, 2024a).

Com frequência, programas e ações são formulados a partir de leituras externas sobre as juventudes, sem considerar de forma consistente suas percepções, demandas e formas próprias de interpretar a cidade e o território. Esse distanciamento tende a produzir iniciativas pouco aderentes às realidades vividas e com menor capacidade de engajamento e impacto.

É nesse contexto que se insere a experiência Juventude & Cidade, desenvolvida no âmbito da parceria entre o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM) e o CAMP Mangueira ao longo de 2025. A iniciativa teve como objetivo central construir um diagnóstico participativo a partir da escuta qualificada de adolescentes e jovens atendidos pela instituição, tomando a cidade como eixo estruturante de reflexão e análise. Mais do que levantar dados, o processo buscou criar espaços de diálogo, expressão e produção coletiva de sentidos sobre o território, o cotidiano urbano e as perspectivas de futuro.

Este artigo tem como objetivo analisar a experiência Juventude & Cidade enquanto estratégia de escuta participativa e instrumento de apoio ao planejamento de políticas públicas e ações socioeducativas voltadas às juventudes. Parte-se da premissa de que a escuta qualificada, quando ancorada no território e orientada por metodologias participativas, constitui um dispositivo político-pedagógico fundamental para a construção de políticas mais democráticas, integradas e sensíveis às desigualdades socioespaciais.

Metodologia: escuta participativa e abordagem territorializada

A metodologia adotada fundamenta-se na compreensão da escuta juvenil como prática político-pedagógica e instrumento estratégico de apoio ao planejamento de políticas públicas. Optou-se por uma abordagem participativa e territorializada, combinando instrumentos qualitativos e quantitativos.

Foram realizadas dez oficinas presenciais no CAMP Mangueira, envolvendo 23 turmas e 240 adolescentes e jovens. As oficinas articularam rodas de conversa, dinâmicas coletivas, produção de tarjetas e atividades de mapeamento, tomando a cidade como experiência vivida. De forma complementar, aplicou-se uma consulta online, que obteve 184 respostas válidas, ampliando o alcance da escuta e permitindo a validação de tendências observadas qualitativamente. Cabe destacar que os locais de moradia informados pelos(as) adolescentes participantes têm maior concentração em bairros da Zona Norte e da região central do Município do Rio de Janeiro, especialmente Mangueira e seu entorno. Há também registros de jovens residentes em municípios da Região Metropolitana, como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo, indicando deslocamentos intermunicipais e desafios de mobilidade urbana no acesso às atividades.

A articulação entre oficinas e consulta online possibilitou a triangulação dos dados, fortalecendo a consistência analítica do diagnóstico produzido. Os dados foram analisados de forma integrada, priorizando a identificação de eixos recorrentes e suas implicações para o planejamento de políticas públicas.

Registre-se que o processo metodológico adotado se aproxima de abordagens de pesquisa-intervenção e pesquisa participante, nas quais a produção de conhecimento ocorre de forma articulada à experiência prática e à interação direta com os sujeitos participantes. Nessa perspectiva, as oficinas não foram concebidas apenas como instrumentos de coleta de dados, mas como espaços de elaboração coletiva de sentidos sobre a cidade e o território. A condução das atividades buscou favorecer a emergência de narrativas situadas, reconhecendo adolescentes e jovens como sujeitos produtores de conhecimento sobre o urbano e suas desigualdades. Tal perspectiva dialoga com abordagens participativas de produção do conhecimento que valorizam a experiência social dos participantes como elemento central para a compreensão das dinâmicas territoriais e para a construção de diagnósticos socialmente situados (BRANDÃO, 2006; GOHN, 2011).

Além das rodas de conversa e das dinâmicas coletivas, as oficinas foram estruturadas a partir de temas centrais relacionados à experiência urbana juvenil, como mobilidade, segurança, território, acesso a oportunidades, cultura, lazer e perspectivas de futuro. Esses temas funcionaram como eixos disparadores do debate, permitindo que os(as) participantes relacionassem suas experiências cotidianas com reflexões mais amplas sobre a cidade e sobre as desigualdades territoriais que atravessam suas trajetórias. Para estimular a expressão e a participação, foram utilizados diferentes recursos metodológicos, como exibição de vídeos curtos, atividades de debate orientado e exercícios de cartografia social, nos quais os(as) jovens identificavam no mapa da cidade seus locais de moradia, trajetos cotidianos, espaços de circulação e territórios de referência. O uso da cartografia social permitiu tornar visíveis dimensões do território frequentemente invisibilizadas em diagnósticos técnicos tradicionais, evidenciando relações entre mobilidade, acesso a direitos e experiências urbanas cotidianas (KASTRUP; PASSOS, 2013).

Nesse contexto, a condução das oficinas envolveu um processo de mediação metodológica e facilitação participativa, realizado pelo pesquisador responsável pelo estudo. A mediação buscou organizar o debate coletivo, estimular a circulação de diferentes perspectivas entre os participantes e provocar a reflexão crítica sobre as experiências narradas. Mais do que orientar a dinâmica das atividades, o papel da mediação consistiu em transformar as narrativas juvenis em elementos analíticos relevantes para a compreensão das dinâmicas urbanas e das desigualdades territoriais vivenciadas pelos jovens. Essa estratégia metodológica permitiu construir um ambiente de diálogo horizontal e colaborativo, no qual a escuta qualificada e a reflexão compartilhada se constituíram como dimensões centrais do processo de produção do diagnóstico participativo, contribuindo para aproximar experiências juvenis e planejamento de políticas públicas territorializadas.

O que os jovens dizem sobre a cidade: leituras juvenis do território urbano

A análise do material produzido ao longo das oficinas presenciais e da consulta online evidencia que, para os(as) jovens participantes, a cidade é compreendida como uma experiência concreta e cotidiana, marcada por desigualdades estruturais, barreiras de acesso e relações ambíguas de pertencimento. As narrativas juvenis não operam no plano abstrato, mas partem do território vivido — o bairro, o trajeto diário, a casa, o transporte, os espaços de lazer — articulando percepções individuais a leituras coletivas sobre a cidade e suas contradições.

De forma transversal, observa-se que o Rio de Janeiro é percebido simultaneamente como espaço de identidade, sociabilidade e produção cultural, e como território de medo, exclusão e restrição de direitos. Essa ambivalência aparece de modo recorrente nas falas e constitui um elemento central para compreender como as juventudes vivenciam o urbano.

O quadro-síntese evidencia que, para os(as) jovens, a cidade é vivida de forma integrada, sem separação entre dimensões sociais, territoriais e políticas. As falas juvenis articulam experiências concretas a leituras críticas sobre desigualdade, direitos e acesso à cidade, reforçando a importância de políticas públicas que reconheçam essa complexidade.

Violência, insegurança e desigualdade como experiências estruturantes

A violência surge como um dos principais marcadores da experiência urbana juvenil. Termos como “violência”, “tráfico”, “assaltos” e “falta de segurança” aparecem reiteradamente, não apenas como eventos pontuais, mas como dimensões estruturantes do cotidiano. O medo afeta a circulação, restringe o lazer e interfere nas rotinas de estudo, trabalho e convivência.

Importa destacar que, nas narrativas juvenis, a violência é frequentemente associada à desigualdade social, à ausência de políticas públicas e à precariedade de oportunidades. Essa associação revela uma leitura crítica da realidade urbana, que reconhece a violência como fenômeno social complexo, relacionado às condições de vida, à segregação territorial e às limitações do acesso a direitos. Para os(as) jovens, segurança não se resume à presença policial, mas envolve educação, trabalho, lazer, cultura e políticas sociais efetivas.

Implicações para políticas públicas

Os achados da experiência Juventude & Cidade indicam que a escuta qualificada das juventudes deve ser compreendida como instrumento estratégico para o planejamento, a implementação e a avaliação de políticas públicas urbanas e sociais. As leituras juvenis evidenciam que os problemas vivenciados no cotidiano — mobilidade precária, violência, desigualdades territoriais, dificuldades de acesso à educação, ao trabalho, à cultura e ao lazer — são interdependentes e não podem ser enfrentados por políticas setoriais isoladas.

Nesse sentido, uma primeira implicação refere-se à necessidade de fortalecimento de abordagens intersetoriais, que articulem políticas de mobilidade urbana, educação, cultura, assistência social, trabalho, juventude e segurança pública a partir do território. A experiência analisada demonstra que o território não deve ser tratado apenas como recorte administrativo, mas como espaço vivido, atravessado por vínculos, desigualdades e dinâmicas próprias, que precisam ser consideradas no planejamento das ações.

A centralidade atribuída à mobilidade urbana nas falas juvenis reforça a urgência de políticas de transporte que reconheçam a mobilidade como direito e condição de acesso a outros direitos. Questões tarifárias, qualidade do serviço, tempo de deslocamento e integração entre modais devem ser incorporadas às agendas de políticas de juventude, reconhecendo que a exclusão territorial limita oportunidades educacionais, culturais e profissionais.

As leituras juvenis sobre violência e insegurança indicam a necessidade de uma abordagem ampliada de segurança pública, que vá além de estratégias repressivas e incorpore políticas sociais estruturantes. Investimentos em educação, cultura, esporte, lazer e geração de oportunidades aparecem, nas falas dos(as) jovens, como elementos fundamentais para a promoção do direito à vida e para a redução das vulnerabilidades nos territórios.

Outra implicação relevante refere-se ao reconhecimento da cultura, do lazer, do bem-estar e da saúde mental como dimensões centrais das políticas públicas voltadas às juventudes. Esses elementos não devem ser compreendidos como acessórios, mas como componentes estruturantes da qualidade de vida urbana e como estratégias privilegiadas de engajamento, convivência e participação social.

No campo das políticas de educação e trabalho, os resultados apontam para a necessidade de ações integradas que articulem formação, qualificação profissional e inserção produtiva, considerando as condições reais de vida dos(as) jovens. Programas voltados à juventude devem incorporar estratégias de permanência, apoio à circulação e orientação para projetos de vida, reconhecendo os limites impostos pelas desigualdades territoriais.

Por fim, a experiência evidencia a escuta participativa como prática de gestão democrática. Conforme argumenta Tolêdo (2024b), a incorporação sistemática da participação social e da leitura territorial nos processos de planejamento fortalece a capacidade institucional do Estado e contribui para políticas públicas mais integradas e orientadas por direitos. Metodologias participativas, quando sistemáticas e institucionalizadas, permitem captar demandas, prioridades e percepções que não emergem em diagnósticos exclusivamente técnicos. Além disso, fortalecem o protagonismo juvenil e contribuem para relações mais horizontais entre Estado, instituições e juventudes.

Considerações Finais

A experiência Juventude & Cidade, desenvolvida no âmbito da parceria entre o IBAM e o CAMP Mangueira, reafirma a escuta qualificada das juventudes como dimensão central para a construção de políticas públicas urbanas mais democráticas, integradas e territorialmente sensíveis. Ao tomar as experiências juvenis como ponto de partida, o processo revelou que adolescentes e jovens produzem leituras críticas densas sobre a cidade, articulando cotidiano, desigualdades, direitos e expectativas de futuro.

Os achados do estudo evidenciam que a cidade é vivida de forma ambivalente, marcada simultaneamente por pertencimento e exclusão, desejo e restrição. Violência, mobilidade precária, desigualdades territoriais e dificuldades de acesso a oportunidades configuram obstáculos estruturais ao exercício do direito à cidade e impactam diretamente as trajetórias juvenis. Ao mesmo tempo, emergem demandas claras por reconhecimento, justiça social, ampliação de oportunidades e fortalecimento de espaços de convivência, cultura e lazer.

A análise reforça que políticas públicas voltadas às juventudes não podem ser concebidas de forma fragmentada ou dissociadas das dinâmicas territoriais. As falas juvenis demonstram a interdependência entre mobilidade, segurança, educação, trabalho, cultura e bem-estar, indicando a necessidade de abordagens intersetoriais que reconheçam o território como eixo estruturante do planejamento urbano e social.

Do ponto de vista metodológico, o artigo evidencia o potencial das metodologias participativas como instrumentos de gestão pública. A combinação entre oficinas presenciais e consulta online possibilitou a construção de um diagnóstico consistente, ancorado em narrativas situadas e em tendências sistematizadas, ao mesmo tempo em que fortaleceu vínculos institucionais e reconheceu os(as) jovens como sujeitos de fala e de proposição.

Por fim, a experiência Juventude & Cidade destaca o papel estratégico de instituições como o IBAM na mediação entre territórios, juventudes e políticas públicas. Ao apoiar processos de escuta qualificada e análise crítica, o Instituto contribui para a produção de conhecimento aplicado e para o fortalecimento da gestão democrática, reafirmando a importância de reconhecer as juventudes como protagonistas na construção de cidades mais justas, inclusivas e socialmente sustentáveis.

Referências

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BRASIL. Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013. Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude. Diário Oficial da União. Brasília, 6 5 ago. 2013. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ lei/l12852.htm.

CALDEIRA, Teresa P. R. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2000.

GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais e participação popular. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

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KOGA, Dirce. Territórios e redes de proteção social: desafios da intersetorialidade. São Paulo: Cortez, 2011.

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PAIS, José Machado. Culturas juvenis. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2003.

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TOLÊDO, Herculis Pereira. Intersetorialidade: uma prática que associa competência e multiplica resultados na Gestão Municipal. Revista de Administração Municipal, v. 1, p. 26-31, 2024. Disponível em: https://www.ibam.org.br/wp-content/uploads/2024/09/ram319.pdf.

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